Eu já fui para obrigação de ônibus com um colchão amarrado nas costas e uma mala na mão, eu já fui de emergência para Passo Fundo com meu pai de santo um bate e volta para atender um irmão, eu já fui em sessão com família de traficante, com morro em guerra, eu já fui de van para uma sessão numa cidade que eu não sei nem onde era, mas foram horas de viagem com meus tios de santo e meu pai de santo, eu já fui correndo a pé para minha mãe de santo, de moto, de Uber, de ônibus, e espero um dia poder ir de avião! Já me enfiei em cada buraco em Cachoeirinha, Viamão, Alvorada, Bom Jesus, Belém Novo, Belém Velho, Gravataí, Tramandaí, São Leopoldo, bairros que eu nem sabia que existiam. Já fiquei em macumba de duas, três, dez e doze horas. Já fui com família doente, comigo doente, com Pingo doente, com pai de santo doente. Já fui com saudade do Exu, com raiva do Exu, com dor infernal, sem dor nenhuma, com gripe, já fui sem saber onde era e voltei sem achar, já dormi e acordei na hora exata de sair.
Mas eu também já faltei porque estava muito cansada, já deixei de ir porque era muito longe, porque estava muito frio, porque estava com dor, porque estava exausta, porque estava com preguiça, porque não queria ver a cara de um irmão, porque queria ir jantar, porque tinha aniversário para ir, porque estava muito quente, já fui, achei, não gostei e fingi que não achei, já fui, entrei, me incorporei e implorei para o guia ir embora porque eu estava extremamente desconfortável lá, já dormi e acordei tarde demais.
Eu já faltei porque não tinha como ir, mas eu queria muito ir. Eu já cheguei atrasada porque foi o horário que eu consegui, eu já fui e bati cabeça para os pretos velhos e saí em menos de 10 minutos com o coração na mão porque eu precisava trabalhar no dia seguinte. Eu já perdi obrigação que eu queria estar porque precisava estar em outro lugar. Eu já faltei porque estava com dor, com família doente, com Pingo doente.
E eu acho que a mais frustrante de todas, eu já deixei de ir porque Sr. Tranca Ruas falou para não ir (já deixei de viajar porque o Seu Veludo mandou ficar em casa e não pegar a estrada naquela noite). Essa pessoalmente me doía mais, porque eu precisava acreditar neles, e deixar de fazer algo que eu queria, simplesmente porque me falaram para não fazer, às vezes até sem justificativa.
Todos os cenários existem, e eles causam as mais diversas sensações. Desde adrenalina, até insegurança.
Eu não peço justificativas (inclusive nem gosto de receber), e nem mesmo que confirmem presença (salvo exceções) porque é um compromisso que vocês assumiram de vocês com os guias de vocês. E quando eu digo os guias de vocês, lembrem que eles são a espiritualidade de vocês, eles são "vocês", é um compromisso que vocês escolheram de vocês com vocês mesmos, onde a Umbanda é este caminho, onde o atendimento a um irmão é algo que também te faz bem, onde se doar te fortalece, onde ser acolhido te fortalece.
Estamos vivendo um momento difícil, assim como vivemos outros momentos difíceis, e por diversos motivos, talvez nem todos consigam vir, ou queiram vir.
A sessão é um acolhimento, um amparo, um lugar seguro, um reencontro com irmãos, é ter a benção de ver nossos pais em terra, abraçar eles, conversar, olhar em seus olhos.
Eu sustento, e repito, é quando estamos mal que precisamos da sessão, é quando precisamos rever rostos queridos, sentir o cheiro da defumação, às vezes sair mais cansados do que chegamos, mas com a paz de espírito e a tranquilidade de ter ido.
E só vocês sabem se é o dia de matar o leão, ou é o dia de deitar ao lado dele e dormir.
Eu já matei muitos leões, e de alguns eu me arrependi, de outros eu tenho orgulho, porque venci uma adversidade que me parecia gigante e consegui me reerguer.
Eu já dormi ao lado de muitos, alguns me morderam o calcanhar, outros foram um cobertor quentinho e confortável que confortaram com a paz de saber que era aquilo que eu precisava.
Quem decidir que vai matar o leão hoje, venha com calma, com tranquilidade, não tenha pressa, estaremos aqui quando chegar.
Quem decidir que vai dormir ao lado dele, fique tranquilo, com o coração leve, de que estaremos unidos mesmo que a distância.
Eu estarei aqui, para acolher, receber, trabalhar com o Pai Benedito e atender aqueles que puderem estar conosco hoje.
O terreiro está aberto para vocês.