"Qual a minha idade religiosa?"
Tecnicamente, nossa idade religiosa se conta a partir da iniciação, não de assistência, não de corrente, mas sim do primeiro cruzamento. Na nossa casa, nós não fazemos a iniciação assim que você chega, deixamos que conheça, aprenda, e tenha certeza antes de qualquer coisa, pois entrar no terreiro é como um relacionamento. Então aqui contamos à partir do momento que conversamos, e você toma a sua decisão.
Na prática, essa medida pela iniciação não funciona muito bem, porque algumas pessoas vão responder contando desde o primeiro dia que entraram em um terreiro como assistência, outros contam a entrada na corrente, outros a iniciação de fato, outros contam pela iniciação naquela casa específica, outros vão contar pela chegada dos guias. Algumas pessoas inclusive, depois de prontas começam a contar novamente "tenho 2 anos de pronto" "tenho 5 anos de cacicamento".
O "tempo de casa" acaba sendo mais fácil, afinal, quem estava antes de mim é mais velho, quem chegou depois, é mais novo, e o gerenciamento de "idades" no terreiro se torna mais lógico, quem vem aqui há mais tempo, tem mais experiência neste axé e como as coisas funcionam.
Mas quando falamos de mais Velhos e de mais Novos tem uma expressão: "tempo não é cargo", a experiência do tempo tem peso diferente em cada pessoa. Para alguns, 3 anos é muito e dá para aprender muita coisa, para outros 7 anos é pouco tempo, há tanto mais o que se preocupar que falta tempo.
A idade mostra que se teve mais tempo, mas não garante que se tenha tido mais oportunidades para aprender e tampouco que isso tenha sido aproveitado. Depende de como cada um se posiciona em relação à religião ao longo do tempo. Mas nem por isso as pessoas mais novas na casa, e que muitas vezes são mais velhas na religião, devem ter sua história apagada.
Então, quando se fala simplesmente de mais velhos e mais novos, para mim se torna algo muito ambíguo, porque nenhuma régua parece justa o suficiente para se montar uma hierarquia crua em cima, pois tempo não é cargo e a idade de axé muitas vezes se torna apenas uma ferramenta do ego.
O desenvolvimento não é uma linha linear ao tempo, e tampouco é comparável entre cada um.
No final, são tantos tempos, que às vezes esquecemos que todos podem nos ensinar algo, assim como podemos sempre ensinar também. O aprendizado ele muda, mas ele não termina. Cada etapa do desenvolvimento abre uma nova jornada.
Mas mesmo que eu relativize o conceito de idade ou tente de alguma forma não deixar ele tão bruto, a hierarquia entre irmãos existe, ela mantém a casa de axé organizada, fortalecida. Devidamente lapidada ela dá segurança aos mais novos, e dá responsabilidade aos mais velhos. Ela cria uma trajetória de respeito e reconhecimento aos caminhos trilhados, independente de tempos, de momentos ou lugares. Ela torna cada etapa única e bela, cada aprendizado bem-estruturado para o próximo.
Essa linha na nossa casa tem marcos bem estabelecidos: Assistência, Assistência fixa, Médiuns na assistência, Visitantes, Médiuns encostados, Membros da corrente, Filhos da casa em desenvolvimento, Filhos com Caboclos Coroados, Filhos com Exus prontos, e Filhos Cacicados.
Boa noite misamores! Uma belíssima semana a todos.